Fabrício Pamplona: canabinoides estão muito além da “euforia do CBD”

Em entrevista exclusiva cedida ao Green Science Times, o farmacêutico, farmacologista de canabinoides e consultor internacional Fabrício Pamplona fala sobre o momento ideal à Cannabis Medicinal (e seu viés jurídico).

Sendo um dos pioneiros no desenvolvimento do mercado brasileiro de Cannabis medicinal, o também neurocientista comenta sobre as oportunidades futuras com estudos dos canabinoides e analisa, também, o papel dos cientistas e dos médicos nessa história. Para fechar o papo, Fabrício falou sobre a visão governamental atual, o auto-cultivo das associações e deu dicas para quem quer empreender no mercado da Cannabis no Brasil. Acompanhe!

[Green Science Times] A Cannabis e seus subprodutos estão bem cotados no mercado global. Alguns produtos de interesse social – tais como fitocanabinoides, utilizados como soluções em saúde -, outros de interesse comercial, tal como é o mercado do cânhamo; e ainda o gigantesco mercado da tradicional maconha para fumo recreativo (ou uso adulto). Em sua visão, o que é euforia e o que é realidade?

[Fabrício Pamplona] Excelente pergunta… bom, já diz o ditado que “Percepção é Realidade”, então diria que do ponto de vista de negócio, a euforia é de fato o que está gerando o drive.

Agora, realidade do ponto de vista de “o que funciona”, aí são outros quinhentos… Mesmo com esse desconto, o que é incrível a respeito dos canabinoides é que eles tocam em funções muito fundamentais do organismo, o balanço homeostático e a regulação fina da neurotransmissão, estando presente em inúmeras partes do cérebro, por exemplo.

Daí, minha percepção é que efeitos como modulação da emocionalidade e redução do stress, modulação da fome, sono, dores e inflamação de forma ampla, regulação da atividade elétrica na epilepsia são conceitos absolutamente palpáveis e reais.

Daí pra frente, há um misto da euforia provocada pelas brechas regulatórias, que permitem que se faça qualquer tipo de produto contendo CBD, por exemplo, misturado com a percepção de segurança desta molécula – e além de tudo o conceito de “promoção de bem estar”, que é bastante amplo.

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Minha percepção é que o futuro será pródigo em termos de consolidação destas aplicações e gerações de muito mais oportunidades. Praticamente todas as doenças crônicas têm algum fundo de inflamação e dano tecidual, e os canabinoides são incríveis ferramentas para reduzir essas reações do organismo. O desafio será como restabelecer o tônus endocanabinoide, cuja queda dá origem ao desequilíbrio e à manutenção desses sintomas crônicos.

Pra mim, o mercado de CBD é 90% euforia e não vai se sustentar no médio prazo. Mas as oportunidades trazidas pelos canabinoides são bem reais. E isso que só comentei da parte ligada à medicina…

[GST] Falando sobre o mercado da Cannabis Medicinal, quais são as perspectivas para quem busca acesso às substâncias químicas da planta, aqui no Brasil?

[FABRÍCIO] Neste exato momento as perspectivas são as melhores possíveis, afinal, estamos finalmente discutindo concretamente a regulamentação do setor no País, com muitas perspectivas diferentes e interesses de diversos setores da sociedade.

Abrem-se grandes possibilidades, e eu diria que:

1) Teremos produtos sendo distribuídos a partir do Brasil, em 2020;

2) O número de prescrições vai aumentar exponencialmente nos próximos anos;

3) Em algum momento próximo, nos tornaremos os maiores produtores da América Latina, desde que não haja alguma interrupção muito abrupta no processo regulatório, por iniciativa do Governo.

Diria que o auto-cultivo continuará acontecendo por via judicial, ou mesmo pela famigerada ação do STF. Mesmo nesse cenário, será cerca de 5-10% no máximo do mercado total de Cannabis medicinal. As associações, como entidades jurídicas, terão que se profissionalizar e se parecerão mais com cooperativas agrícolas ligadas a dispensários.

No médio prazo, não acredito que terão melhor preço. Acho que será mais uma questão de posicionamento e variedade de disponibilidade de produtos do que (de fato) uma grande vantagem pra quem busca fornecimento contínuo e produtos padronizados.

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Apesar disso, no momento atual estão prestando um enorme serviço ao país e depois do ativismo que iniciou isso tudo, as associações de pacientes (de fato) estão fazendo o trabalho mais duro e pesado, colocando a cara a tapa. Acho louvável e tenho o maior respeito pela coragem e determinação.

[GST] Sabemos que a P&D, I, aliados às ciências e medicina geram grandes impactos sociais, sempre que estimulados. No momento atual brasileiro, em que a pesquisa é desincentivada e as proibições em estudar a planta da maconha aumentam, como manter-se no País, estudando os efeitos da Cannabis no cérebro e corpo humano?

[FABRÍCIO] Muito difícil, o cenário científico no país está terrível. No entanto, como a regulamentação [da Cannabis] prevê a realização de estudos clínicos e acompanhamento de farmacovigilância, eu acredito que haverá:

1) Uma grande oportunidade para universidades prestarem serviços de consultoria e realizarem cursos de formação;

2) Grandes oportunidades de empreendedorismo para formação de rede de “serviços” associados (extração, análise fitoquímica, transporte de produtos controlados, manejo de resíduos, geração de subprodutos, apoio terapêutico etc), que podem (e devem) muito bem ser capitaneada pelos egressos de cursos de pós-graduação brasileiros; e

3) Grandes oportunidades para empresas e profissionais que realizam pesquisas pré-clínicas e clínicas em nosso país, visando o desenvolvimento de novos produtos a partir de Cannabis.

Mercado já vende em mais de 30 países produtos produzidos com a fibra do cânhamo

A inovação tecnológica será uma força motriz desse mercado, que a “euforia do CBD” não nos deixa perceber, está todo mundo só olhando pra superfície desse fenômeno pensando no dinheiro fácil. Quem investir em inovação terá uma sobrevida muito mais longe e bem-sucedida.

Eu, felizmente, estou posicionado dessa maneira já faz alguns anos, e nunca recebi tanto contato e gente interessada [no tema] nos últimos tempos. Sendo honesto, acho que já dava pra viver só de palestra e curso, se quisesse virar um profissional especializado nisso, mas a minha paixão é desenvolvimento de produto e inovação em saúde, então, ainda vou perseguir esse caminho visando a geração de valor no longo prazo e a materialização do que ainda está por vir… difícil é fazer isso no Brasil!

[GST] Economia da Cannabis: Há Estados americanos que querem ‘salvar’ suas previdências, legalizando o plantio e consumo de Cannabis. A Argentina autorizou o plantio para uso medicinal em uma reunião do Senado, que em 3 minutos, aprovou (por unanimidade), com foco econômico. Enquanto isso, no Brasil o governo e legisladores discutem se droga ou não. Um terreno árido para empreender… Sendo também um empreendedor da Cannabis, as proibições legislativas e regulatórias, somados às dificuldades de acesso à planta impedem de alguma forma o nascimento de um ecossistema empreendedor saudável? Se existem, onde encontrá-los?

[FABRÍCIO] Sim, a regulação hoje no Brasil é muito impeditiva. O nosso país é conservador e cheio de nuances políticas. As pessoas, em geral, só se movem porque conhecem um caso próximo, ou tem alguém na família. A visão política do país é super limitada e baseada no “achismo”, infelizmente temos pouca cultura de dados – e quase nenhum pragmatismo.

O exemplo da Argentina foi bom. Também estou acompanhando um pouco mais de perto o cenário de Portugal. É de dar inveja, pois os caras conseguem lidar com esses temas polêmicos de uma maneira muito mais bem resolvida. No Brasil, tudo vira histeria e extremismo, está muito complexo.

Israel: Tecnologias em desenvolvimento para cultivo indoor, em 2016. Legalização veio dois anos depois.

Felizmente, temos pacientes corajoso que tem se exposto, e uma mídia sensível à situação deles, que não nos deixa esquecer que há uma urgência pra que tudo isso se resolva. O Brasil é provavelmente o maior mercado ‘engargalado’ do planeta. É apenas uma questão de tempo [para regulamentação], porque é inevitável.

Agora, como estamos atrasados (muito atrasados), vai ser um pouco mais difícil pra empresas brasileiras competirem em ‘pé de igualdade’ com as estrangeiras. Porque a hora que abrir o mercado [brasileiro], as grandes vão ‘jorrar produtos’ pra dentro do país.

Como não podemos trabalhar “direito” ainda com a planta, estamos defasados, apesar de termos excelentes profissionais e empresas mais do que capacitadas para atuar.

[GST] E no meio dessas regulações e legislações estão os médicos. Mesmo com estudos clínicos e evidências comprovadas, por que ainda é complexo os setores que representam a medicina brasileira aceitarem os benefícios das substâncias químicas advindas da Cannabis?

[FABRÍCIO] “Não há evidência”: é o que mais ouço. É como uma desculpa, pra não dizer a frase “Eu desconheço”, ou “Não estou confortável”. O tema é dogmático e pras pessoas mudarem de opinião sobre algo tão enraizado toma tempo. Esse processo de convencimento não é racional, é totalmente emocional e em geral pelo exemplo.

Os médicos aprendem com a transferência de experiências de outros médicos, simplesmente assim. Então, nesse aspecto, não acho que ficar mostrando estudos científicos vá mudar radicalmente a opinião de ninguém da noite pro dia, mas precisamos instrumentalizar os que já tem uma opinião diferente.

O erro dos conservadores, a meu ver, é na linha do “não faço e não deixo fazer”. Ninguém está obrigando ninguém a nada, mas os profissionais que quiserem prescrever devem se fundamentar e fazê-lo, afinal, a vida não espera e já há bastante evidência e relatos muito positivos.

Concordo com os que dizem que não há muita evidência de alta qualidade, como estudos clínicos controlados, pra maioria das aplicações alegadas pelos defensores, mas o que acontece é que particularmente pra esse tema, os pacientes tiveram experiência própria antes mesmos dos estudos e dos próprios médicos aprenderem sobre isso. É uma inversão do fluxo normal, e os médicos estão perdidos. É simplesmente isso, embora não queiram admitir.

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A revolta que acontece com a Cannabis tem a ver com a perda da posição de autoridade… Eles ainda vão entender, assim espero. Pelo menos as gerações mais novas estão aderindo rápido. Não podemos exagerar na responsabilização dos mais velhos, afinal, quando eles estavam na faculdade nem se conhecia o sistema endocanabinoide!

Não me surpreende que já tenha visto declarações de médicos suspeitando da existência desse sistema e achando que isso é “desculpa de maconheiro”. Mas quem não se atualiza, morre na praia…

[GST] Quais conselhos pode dar para quem quer empreender no mercado da Cannabis no Brasil? 

[FABRÍCIO] Difícil dar conselho, porque a situação ainda está muito pouca definida. Eu tive um “click” 10 anos atrás quando estava fazendo doutorado na Alemanha e vi uma startup nascer de dentro dos laboratórios do Instituto Max Planck.

Essa experiência mudou minha vida e perspectiva, hoje acho que a pós-graduação é o maior celeiro de talento do país; e ao mesmo tempo muito subutilizado e com uma baixa autoestima enorme. Meu caminho é ajudar os jovens cientistas do Brasil a perceberem o seu potencial de contribuição.

Há muita oportunidade para inovação e “empreendimentos canábicos” estão nascendo a todo momento no Brasil. Quem puder e tiver interesse, deveria estudar as empresas que surgiram lá fora e se antecipar. Há muita coisa por ser feita, e não haverá espaço para que todos sejam cultivadores. Não é por aí, sugiro mirar um pouco mais alto!

* Entrevista exclusiva cedida ao Green Science Times

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