Psicologia & Perspectivas: Cannabis atuando na redução de danos da cocaína e crack

Por Yone Monteiro, Psicóloga Clínica * | 30 de agosto de 2019

Orgulho de quem é de Belo Horizonte/MG, cresci e vivo aqui intensamente presente ao que já aconteceu. E hoje, menos um pouco, mas significativamente conheço o que acontece na cidade e suas incríveis e infinitas possibilidades. [quando o caso é saúde púbica, também]

Desde dos 16 anos sabia que queria ser psicóloga, sempre observei atentamente o que acontecia a minha volta, e percebia e sentia o que afetada as pessoas positivamente e negativamente, e é fascinante perceber e sentir.

Já, já falo da Cannabis e os resultados práticos!

Consigo hoje assistir (em todos os significados do verbo ‘assistir’), as pessoas que desejam descobrir este olhar de dentro, e a caminhada do saber vem de suas histórias, os enredos são uma aventura de descoberta e fazeres, e a partir do olhar individual e único, porem infinito, surgem as ferramentas, as técnicas para cada caso.

O exercício da psicologia é um constante estudar, não dá para assistir um ser humano sem observar e construir a partir da sua fala, e vivenciar e aprender novas terapias e estar aberto a campos e saberes das mais diferentes origens, e a eficácia para cada um.

O bom humor é sempre um ótimo companheiro, contagiante e acolhedor, sem limite é para poucos, o humor que se encontra no trágico é o mais interessante, mas assusta as mentes reprimidas pelo medo da punição, espalharam por muito tempo a ideia de que o humor e a brincadeira são sinônimos de imaturidade e irresponsabilidade. Oi?

É melhor bem-viver do que bem-estar

A pratica clínica não exclui, e nem deve ser negligenciada pelas práticas sociais de sobrevivência e dignidade, a integração das várias necessidades que o indivíduo tem, inclui a avaliação psicológica e assistência segura, a clínica medica tem no acompanhamento psicológico uma parceira que tem que ser cumplice e afinada.

As práticas de tratamento de usuários de drogas sempre chamaram a atenção, pois nesta cidade tem festa e diversão de muitas possibilidades, todo dia, e de escolhas variadas, mas predominantemente, Belo Horizonte é o Paraiso etílico.

Drauzio Varella: A metabolização do álcool é mais lenta nas mulheres que nos homens, por isso alcoolismo crônico em mulheres e suas consequências progridem mais rapidamente nelas.

É normal? Álcool começa em casa e ninguém (ainda) diz nada

Minha experiência com usuários de drogas vem do berço, rs, (álcool na família era algo normal e bem-vindo), sempre observando as mudanças físicas, psicológicas e comportamentais, e obviamente, energéticas que ocorriam com cada um de nós.

Quando surgiram os casos de abuso de crack na comunidade terapêutica que e eu trabalhava, o desafio era muito grande, pois era uma nova droga que potencializava comportamentos paranoicos e psicóticos em usuários abusadores, a redução de danos surgiu como uma alternativa interessante e eficaz, mas aplicada em todos os envolvidos, usuário e familiares, e no meio social.

Cracolândia formada no Centro de São Paulo, na região da Estação da Luz – marco cultural da capital

E enquanto os médicos tradicionais começavam a experimentar todo o tipo de combinação farmacológica, na escuta clinica a partir do usuário, que percebi a eficácia do uso de cannabis na manutenção de abstinência da cocaína e do crack, principalmente.

Os abusadores de álcool e de medicamentos que exigem controle, não chegavam a considerar a possibilidade de usar a cannabis como auxiliar na redução de danos, baseados em preconceito, desconhecimento e medo por ser ilegal.

Leia também: EUA: Legalização da maconha reduz mortes por opioides em 20%

Redução de danos: bom exemplo está na visãodos profissionais que atuam no CAPS AD II do Distrito Federal

Maconha ajuda a reduzir danos do crack e cocaína

A redução de danos com uso de cannabis se mostrou muito mais eficaz do que os tratamentos com medicamentos usuais da psiquiatria, pois além de reduzir o desejo de usar cocaína e crack aumentava o apetite e causava sonolência, auxiliando no processo de reabilitação do indivíduo. E com a vantagem de não causar dependência física, mais a psicológica que é de fácil manejo e substituição.

“Operadores de Milagres”

Na filial da Fazenda da Esperança em Teresópolis, internos rezam o terço como parte do tratamento para dependência química Foto: Custodio Coimbra/O Globo

Durante este período de observação e acompanhamento de usuários, abusadores de drogas e seus familiares percebia a necessidade de uma visão cada vez mais eclética na prática clínica, pois a busca de soluções rápidas os levavam a uma corrida desesperada que acabava por coloca-los nas mãos de grupos religiosos, que não tinham conhecimento cientifico comprovado. Alguns com boas intenções, mas a grande maioria se colocando como salvadora e fazedora de “milagres”.

Leia mais sobre o tema: Governo muda política de drogas e dá guinada em tratamento de dependência química

Cannabis e a conexão com ciências milenares

Optei por buscar conhecimento que pudesse ter alguma comprovação cientifica ou pelo menos, que tivesse uma tradição milenar: meditação, acupuntura, yoga, medicina indiana/ayuvedica, homeopatia, antroposofia, psicologia ‘transpessoal’, constelação sistêmica.

E também novas práticas de tratamentos a partir de bioenergias: conscenciologia, jin shin jyutsu e Barras de Access que, além de praticante, sou facilitadora de Classes. Todas essas práticas tem sido excelentes ferramentas na condução do tratamento psicoterapêutico.

Qual é a sua compulsão?

Dentro de uma visão mais honesta e profunda do comportamento humano, todos somos abusadores e compulsivos em algum tipo de comportamento, então não há que classificar qual “droga” é pior.

Por exemplo, conviver com um workaholic pode ser tão danoso quanto com um jogador compulsivo, ou um atleta obcecado por seu esporte, ou um comprador compulsivo ou alguém com transtornos alimentares. Ou um fanático religioso ou um alcoólico. A complexidade do comportamento humano nos leva a querer conhecer mais e mais para ajudar a tornar a existência mais leve e produtiva.

Resultados práticos e científicos

A indicação de cannabis para vários tipos de transtornos psíquicos e doenças incapacitantes é uma realidade incrível, agora então, com uma produção controlada e responsável (nada daquelas maconhas prensadas e misturadas, mas que também surtiam algum efeito terapêutico) percebo com satisfação um avanço na recuperação e reabilitação de vários pacientes

Inclusive senhoras que atendo que estão abandonando anos de abuso de medicamentos alopáticos fazendo o uso do óleo e recobrando a alegria de viver sem dor e sem insônia e sem os efeitos colaterais dos fármacos.

A pluralidade e diversidade do ser humano me encanta e busco este encantamento na pratica clinica constantemente, fico aliviada por ver e saber que  o conhecimento e a prática médica, psicológica e social tem evoluído e o número de profissionais com uma visão mais aberta e desprovida de preconceitos equivocados tem aumentado consideravelmente e os estudos que comprovam que a cannabis é uma droga poderosa e eficaz no tratamento de diversas enfermidades e, também, é uma planta que pode ser utilizada de várias formas na sociedade.

* Yone Monteiro, Psicóloga Clínica, desde 1992. Pós-graduada em Dependência Química e Co-dependência em Belo Horizonte, cidade com o título de “Capital Mundial dos Bares”.

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